Autismo é pauta neutra?
Você já deve ter ouvido de alguns influenciadores, grupos organizados e até pais de autistas que eles não querem misturar política com autismo para não contaminar a pauta. Como se o autista vivesse em um mundo que não é político, como se a exclusão do mercado de trabalho, por exemplo, não fosse fruto de um sistema que descarta quem produz menos, porque precisa lucrar cada vez mais. Não existe luta por inclusão que não seja política; é impossível pensar em uma mudança social profunda que não passe por uma crítica ao sistema e como ele funciona. De nada adianta tratar um autista e devolvê-lo ao sistema que o adoece. É ciclo sem fim do Rei Leão. É preciso primeiro reconhecer que PcDs vão ter dificuldade de terem acesso aos mesmos direitos; por isso, precisamos criar formas de diminuir essas barreiras de ingresso pleno nesses espaços. Só que esse tipo de ação tem seus limites; nunca podemos cair na armadilha de naturalizar essas barreiras e, acima de tudo, não podemos tutelar esses indivíduos. Uma rampa ou abafador são formas de inclusão, mas não resolvem os problemas se nossa mentalidade tratar esses indivíduos como não-pessoas.
Você pode até alegar que é "neutro" para que a "palavra do autismo" chegue mais longe. Mas parafraseando aquela famosa frase: não basta não ser capacitista, é preciso ser anticapacitista. Quando você nega a um autista o caráter político de sua luta, existe aí um apagamento dessa identidade. Aqui no CPA já recebemos muitos ataques por conta do nosso posicionamento político, não só por sermos de esquerda, mas por que somos autistas com posicionamento político claro. Acusações de que comunistas estariam se infiltrando na pauta, quando, na verdade, todos os nossos membros são autistas. Incomodamos por sermos de esquerda, mas somos inaceitáveis por sermos alguma coisa — afinal, autistas são neutros, né? Esse capacitismo que nos põe sempre nesse lugar de silêncio, onde precisamos que alguém fale por nós ou não somos autistas o suficiente, precisa ser esculhachado em alto e bom tom.
A pauta nunca foi neutra; claramente existe uma disputa de interesses rolando agora entre planos de saúde e autistas. Podemos defender autistas como apolíticos nesse caso, pessoas que precisam de defesa contra pessoas isoladas que são simplesmente maldosas. Ou podemos refletir sobre a necessidade de suporte maior por parte do SUS, para que nenhum autista fique refém dos interesses dos acionistas bilionários de uma rede de planos de saúde e sua sede por lucro. Não é um caso isolado, mas o sistema funcionando como foi criado para funcionar. Adivinhe qual abordagem vamos fazer.