Incentivar apostas durante transmissões deveria ser crime
Para quem acompanha futebol, não é novidade a invasão em massa das bets como patrocinadoras oficiais dos eventos esportivos, times, jogadores e até narradores. Entretanto, a transmissão da Copa tem elevado isso a outro nível. Começam a surgir apontamentos de que, durante a transmissão de jogos na CazeTV, aconteceram episódios em que os apresentadores falavam diretamente que tipo de apostas fariam e o quanto isso seria lucrativo. As bets saem de serem patrocinadoras para entrar como algo normalizado — e podemos dizer incentivado — durante conversas descontraídas típicas da transmissão no Youtube.
Preciso realmente dizer a vocês o quanto é perigosa toda essa situação? Você tá em casa só com o dinheiro para pagar a conta de luz, aí alguém comenta que o odd — o quanto você pode receber com aquela aposta e/ou a probabilidade de ganhar — tá bem alto e que daria para ganhar o dobro da grana de volta. O que você faz? "Ahhh, mas aposta quem quer". Claro, mas bebe quem quer e fuma quem quer. Só que temos leis específicas para esse tipo de propaganda, com limitações objetivas. Desde que o Lula sancionou a regulamentação das bets em dezembro de 2023 — com a desculpa de que o mercado já existia, mas com o objetivo claro de atender aos pedidos da cruzada pessoal do Fernando Haddad para encaixar o país dentro do maldito arcabouço fiscal —, as bets saíram completamente do controle. Invadiram festas populares, transmissões esportivas, redes sociais, transporte público, etc. Sem regulação do tipo de propaganda que podem ou não fazer, tudo por agora pagarem 12% de impostos e remeterem o resto para paraísos fiscais. Para você ter uma ideia: um trabalhador de carteira assinada contribui com o INSS mensalmente de 7,5% a 14% e, se optar por vale-transporte, a empresa pode descontar até 6%. Faz sentido para você?
A Globo, que tem a transmissão mais tradicional da Copa, também foi inundada por bets. Já ouviu relatos de quanto as casas de apostas oferecem para subcelebridades? São sempre valores astronômicos. Imagina comigo: quanto deve ser lucrativo ter uma bet como patrocinadora da maior transmissão da Copa? Pode ser imoral, mas dá muito lucro. Os maiores influenciadores e até jogadores de futebol têm suas casinhas de apostas como madrinhas de suas carreiras.
Pesquisas recentes deixaram claro que o povo brasileiro não apoia as bets. Na pesquisa AtlasIntel feita este ano, por exemplo, 86,7% dos entrevistados disse que considerava apostas online prejudiciais à sociedade. Já 79,7%, na pesquisa CNT/MDA, concordaram que bets trazem mais prejuízos que benefícios. Se não existe apoio popular, por que o governo Lula não fala sequer em uma regulamentação mais pesada para as casas de apostas? Parafraseando o próprio: ele não é de esquerda. O ponto é que é insustentável manter do jeito que está. Casas de apostas não podem fazer propaganda em massa para milhões de pessoas sem alertar sobre riscos, sem serem transparentes com o seu funcionamento e administração. Esse tipo de "liberdade" para uma oligarquia que se alimenta de um capital que nunca vai se materializar por aqui rasga o tecido social do país. Ninguém por aqui tá cobrando uma radicalização desse governo, mas que seja feito o mínimo que outros países já fizeram.
Propaganda de cigarro é proibida, vêm nas caixas aquelas imagens com as consequências para a saúde, mas eu posso, para milhões na TV ou na internet, dizer: faça uma aposta — ou, pior, faça essa aposta. Propaganda de bets em transmissões, TV, rádio, internet, transporte público ou onde mais esses infelizes conseguirem, deveria ser crime. Ou, se vamos jogar com a pauta baixa, elas deveriam passar por regulamentação pesada. Seus candidatos de 2026 são contra ou a favor das bets? É algo a se considerar na urna.